sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Gueixa


A pele de mármore branco revelava a delicadeza incorruptível, os olhos rasgados dançavam sutis por entre os olhares famintos de perplexidade. O carmim dos lábios não desmentia o fato de que ela era objeto de desejo, ainda que de um desejo sublime.

O quimono arrastava-se, mas seus gestos flutuavam. Diante da sutileza de suas flores, o pessegueiro derruba todas suas folhas em reverência. Em reverência ao pessegueiro, a gueixa mantia a suavidade dos seus atos, ainda que pessoa alguma estivesse a admirá-la. Não era espetáculo para homens a sua beleza: ela vivia pela brisa e pelo vôo das andorinhas.

Mas depois da aparição aérea, ela abandonava o lugar com seus passos milimétricos, deixando uma aura de intocabilidade e um perfume doce. Assim devia ser: como um contato com a essência do belo, mas passageira.



Tão logo partia, tudo voltava a ser áspero e cinza.

2 comentários:

O Desbunde disse...

esse texto lembrou-me uma cena de "Sonhos", filme de Akira Kurosawa. belíssimo!

Maíla disse...

"sonhos" foi um dos primeiros filmes pelo qual me apaixonei! :)