sábado, 30 de agosto de 2008

Nó na gravata

Enquanto eu preparava o almoço, Antônio lia o jornal. Sempre fez questão de ler, antes de tudo, o caderno internacional - dizia que o Brasil de pequenas políticas lhe dava claustrofobia. Mesmo que há mais de mil léguas, tomava a guerra dos rincões do mundo como se tivesse acabado de cair uma bomba no quintal vizinho. Para o cotidiano de casa, porém, era hipermétrope - e já fazia quatro anos que eu era só mais um de seus compromissos mais próximos e rotineiros. Não que não precisasse de mim, como o bêbado precisa do poste para escutar-lhe as mágoas a que ninguém dera ouvidos. Mas eu gostava de ser essa luz míngua em sua vida, e não me importava com as moscas que me circundavam zonzas enquanto eu ouvia os pesares daquela humanidade em putrefação.

Antes de sair, lustrei-o com meu sofisma de bom-tom, elogiando sua gravata e a noite anterior. Comprazia-me em fazer vibrar aquele sorriso arrogante de quem vencera na vida e deixara a bandeira de desbravador no alto de um monte só para ser invejada por almas de menos fibra. Dando seqüência ao costume, pedi-lhe um beijo, com a delicadeza de quem pede a salada distante no almoço de domingo. Distante e quase contrariado ele atendeu a meu favor. Mas depois sorriu maliciosamente, associando esse implorar por atenção a uma de suas conquistas, a maior delas, e saiu convencido como um Alexandre. Meu deus! Há quatro anos eu estava criando esse pavão de belas penas, alimentado pelo vanilóquio bendizente das minhas palavras. Mal sabia ele que, enquanto eu o inflava com uma mão, segurava a agulha com a outra, sem saber ainda o que fazer com ela - pode ser que nem mesmo quisesse usá-la.

Mas eu não podia jogar janela afora estátua tão bem esculpida, ainda que ela tenha tomado consciência de si e deslumbrara-se com a própria imagem. Em mãos de demiurga, eu talhara cada pequena curva daquela presunção com a precisão do beija-flor que prepara ninho - como então abandonar a minha mais autêntica obra? Mesmo Deus mantia os filhos de Adão no mundo, ainda que esses lhe ferissem continuamente a criação. Que eu mantesse ao lado, pois, essa estátua que me açoitava o orgulho, como se a criatura, pior que fosse, ainda era a razão de ser do criador. Talvez não tão ofuscada quanto antes: o correr dos dias me abriam os olhos lentamente, mostrando-me a fragilidade daquele vaso chinês a que eu tomara por fortaleza. E o vaso já revelava estar trincado.

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Tremores raivosos da terra fazem descer ao chão séculos de história e matam dezenas de milhares. Riquezas da terra são descobertas e devoradas como o pão daquele que há muito não vê comida. Tornados cobram aos homens o preço da colonização de áreas que a natureza não lhes dera aval para tal. Diante disso tudo, Júlia elege como desastre número um do dia o arroz que queimara há pouco. Notícia era para ela o aviso da falta de café na despensa; tudo o mais eram curiosidades que, no máximo, a ajudariam a preencher uma ou outra palavra das cruzadas que comprei para ela para preencher o tempo inter-refeições. Mas eu não a queria diferente disso: melhor míope, porque assim sobrava mais foco para o universo complexo do lar.

Ainda que as flutuações globais fossem o motivo das minhas preocupações maiores, eu não deixava de ver no bom correr da casa, no oikos nomos, os feitios de uma deidade ardilosa. Impressionava-me aquela Júlia de mil tentáculos, um para ajustar cada detalhe, raramente percebidos por mim. O senso estético de miudezas superava em muito o prático, e, mais danoso que isso, também subjugava o econômico. Justificável, portanto, a divisão de papéis que eu impora: ela realizaria-se sob nosso teto comum; eu, sob a ausência deste no mundo. Eu, Zeus, administrador do céu e da terra; ela, Hera, senhora do aconchego caseiro. E, ultimamente, até mesmo a ira dessa última eu tenho percebido nela. Se a beijo, não sinto mais o velho gosto do feijão que foi provado só para ver se agradaria a meu paladar melindroso. Sinto agora aquele gosto venenoso de vingança - um desconhecido meu, porque nunca precisara provar ou usar dele. Em qual dos meus deslizes eu teria feito ruir minha Júlia servil?

Antes de partir para o labor, ela ma lembrou de beijá-la. Desconfiei que aquele pedido fosse um teste, que ela queria medir meu afeto em um gesto. Relutei, mas não levei, na hora, a desconfiança a fundo, e cumpri o pedido de um modo tão morno quanto o apetite sexual dela na última semana. Mas aquilo ficou martelando meus pensamentos durante a tarde toda. Um gosto de arroz queimado na boca, como se eu houvesse cozinhado demais algum problema que se arrastava há tempos, fez-me esquecer da expectativa do pedido de trégua entre sunitas e xiitas das últimas manchetes. Há quase vinte anos da queda do muro, quando eu a assistira na adolescência, e uma paz armada novamente sendo formada entre o reboco das minhas paredes.

(continua)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Pulo do gato - eles

[no prostíbulo]

- Cá por essas bandas, Giroslau? (sogro, entre a surpresa e o flagrante)
- Esfriar as idéias, né, seu Gerôncio? (genro, entre o flagrante e a malícia)

E as festas de família daquele ano nunca foram tão pacíficas.



[não há andar gatuno que não deixe rastros, nem discrição que não possa ser farejada.]

Pulo do gato - elas

[na fila das comidas prontas, antes do almoço de Natal]

- Cá por essas bandas, dona Quitéria? (nora, ironicamente desmascarando a sogra não-prendada)

- Pois é, Adelaide. E essa maionese que vc tem em mãos é muito boa também. É da mesma que eu havia comprado para a ceia. (sogra, não deixando barato)

E o almoço natalino nunca foi tão elogiado.



[mas nem depois disso elas deixariam de passar base e blush no belo rosto das convenções]

sábado, 16 de agosto de 2008

Chau

Musica: Rafael Varela
Letra: Judith Gómez Bas



Vos sos un tipo piola.
Yo, una mina
que se pasa yugando todo el día
y que cose puntada tras puntada
en el lungo vestido de la vida.

Como buda que esperó bajo la higuera.
Yo chapo con paciencia la tijera
y corto el dobladillo a la existencia,
que toca con nostalgia las veredas,
del barrio que sonríe su inocencia.

Cuando el de las alturas se rechifle
y entre en la dimensión desconocida.
Un incienso tendré por despedida
y volaré en el globo de su chicle.

Entonces diré ¡chau!
y aunque te quiera
esperame sentado,
pero afuera.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Dialética da presença

Há quem peça a distância de um quadro para ser admirado. Nem tão longe que se faça esquecer, nem tão perto a ponto de perder o encanto.

Faz-se tão presente quanto a lembrança límpida de um dia bom: embora tenha se ido, persiste na memória.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O desejo

insaciável.
do estômago, tanto ácido faz migalhas.
do bom senso, tanto ímpeto faz farelos.
ainda assim, a mais cobiçada iguaria.
e o preço mais caro a ser pago
por ser insaciável.

sábado, 2 de agosto de 2008

Internas

Hoje o Wilson me deu umas lições tão lindas sobre ter os pés no chão, sobre o sofrimento que acompanha as idealizações, sobre ter espírito prático em alguns momentos e não em outros (não apenas em relação ao "plano c"), que eu juro que farei o maior esforço em entendê-las quando eu chegar na crise dos 30, tá?

Até lá, ao menos vou vestir um tapa-olho, pra não vislumbrar tantas possibilidades improváveis. E também não vou insistir, em vão, na tentativa de fugir do determinismo que sempre nos acompanha. Não sem um esboço de sorriso. Why so serious, right? Cem anos é pouco tempo pra perder com moinhos imaginários. A fórmula é: mais Machado, menos Cervantes.

A não ser, é claro, que um plano c me leve um dia para Côte d'Azur. Tá, entendi! Isso é improvável demais e eu preciso de só mais 4 meses de paciência e uns 4 kg a menos de ambição. O peso absurdo da idealização acaba com a leveza do dia-a-dia.


Eu espero lembrar-me disso após a próxima tpm ou outra t qualquer. Vou rabiscar na parede das minhas (poucas) memórias úteis.
Também espero cada vez menos postagens diarescas :p

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Como?

escolher o que não se conhece?
e negar o que nunca foi provado?

esse saldo de no máximo 90, 100 anos é muito pouco para o que a vida poderia oferecer.

Gueixa


A pele de mármore branco revelava a delicadeza incorruptível, os olhos rasgados dançavam sutis por entre os olhares famintos de perplexidade. O carmim dos lábios não desmentia o fato de que ela era objeto de desejo, ainda que de um desejo sublime.

O quimono arrastava-se, mas seus gestos flutuavam. Diante da sutileza de suas flores, o pessegueiro derruba todas suas folhas em reverência. Em reverência ao pessegueiro, a gueixa mantia a suavidade dos seus atos, ainda que pessoa alguma estivesse a admirá-la. Não era espetáculo para homens a sua beleza: ela vivia pela brisa e pelo vôo das andorinhas.

Mas depois da aparição aérea, ela abandonava o lugar com seus passos milimétricos, deixando uma aura de intocabilidade e um perfume doce. Assim devia ser: como um contato com a essência do belo, mas passageira.



Tão logo partia, tudo voltava a ser áspero e cinza.

Amor inventado

Coisa mais linda, no blog do denis (forsign)


"ah! menina

podia te inventar agora inteira. que foi de sentar ao teu lado, sentir a vida de tua viva tatuagem que se me desnorteia. ali no tapete azul, esticados entre os grãos de areia que não eram seu sorriso pequeno de olhos grandes-distintos. podia reinventar tua pele inteira. podia, entregue. podia descer numa i meia, preso pelas coxas, rodar a noite inteira, entre os braços dois e um. um só nós dois, e tres, e quatro até, que enfim... quero-te de mentira inteira, de meia e mais nada. quero te inventar a derradeira entre as tantas vindouras e mesmo entre as certeiras. quero-te bem, pelas preces do querubim. quero-te rima fácil assim, de vinha doce, corriqueira, que do roxo a uva se desfaz, num zaz. quero-te ar e pano, amarrado ao mar e aos meus parvos planos! Quem te nasceu assim? Quem te contou essa graça eterna que tinge o tecido destes teus pequenos lábios? quem? diz-me que te inventei assim, e assim morreremos ontem, que o amanhã não vem. te sonho com certeza, mas tens."


:)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Shakespeare´s land

london calling...

should I stay or should I go?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Só pra lembrar

que a felicidade não é um compromisso.
e que só quando nos esquecemos dela que ela nos faz uma visita.

Café

... e do café tentava sorver a própria vida: sem o sangue negro, abatia-lhe a desonra do maior - e único - vício humano, a languidez.

sábado, 26 de julho de 2008

Deram-me

um par olhos novos. Disseram-me que os meus já estavam misturando as imagens, apesar de não perceber.

São belos olhos amarelos, quase dourados. Estou com eles em mãos agora, e eles me miram como que tentando hipnotizar-me. Suas pupilas vão dilatando vagarosamente, envolvendo-me em seu abraço devorador.

Deram-me um par de olhos para que eu os veja como eles querem que eu os veja.
Acho que prefiro vê-los misturados. Sem contorno, sem maniqueísmo.

Guardei os olhos gateados numa caixinha delicada e deixei-a na rua. Talvez alguém faça mais proveito de uma visão de mundo mais nítida e identificável. Por mim, continuo andando por entre névoas.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Páginas ao vento

Aquela sensação de desamparo, terminada a última página de um livro bom.

Pior que ela, é a de ter lido só o prólogo e saber que nunca mais o livro voltará às mãos.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Outro

Outros ares,
ainda que infectos.

Outras matizes,
ainda que opacas.

Outras faces,
ainda que distantes.

O que importa é o contato com o alheio.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O som

Como a palavra pode se mostrar inexpressiva e impotente
perto da música!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Do mar










a dor
a dor a
a dor a dor.

o ar
o som
e o dom
do mar

domar
a dor:
do mar,
o som
somar.
deixar
soar.

só ar,
só mar.
e só!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Cervos, dentes e tigres


Tem momentos em que a pasmaceira é tão grande quanto o instante em que o cervo, já milimetricamente analisado pelo tigre, esquece-se de sua posição desprivilegiada na teia alimentar. Nesse instante, para o cervo, existe só ele e campo, ou ele e crias, ele e manada; nunca ele e dentes rasgando-lhe o pescoço. A vida se passa como se cheia de harmonia e plenitude: a natureza não lhe oferece fartura, mas também não lhe exige mais que dar alguns passos enquanto se alimenta. O sol toca-lhe o couro como a um carinho cândido e despretensioso. Beleza simétrica das ciências exatas.

É um marasmo próximo aos que nos acontecem esporadicamente. Minimalistas, como que enxugamos nossos descomedimentos cotidianos. Deveres nos somem, prazeres também. Pensamentos migram para um ponto de fuga que dá em lugar nenhum. A este estado, só consigo comparar um dia frio de céu azul e sol à vista ou a abstração de uma folha em branco.

Mas num átimo o tigre mostra suas intenções e o cervo retoma seu lugar na teia. De duas, uma: ou este desmaterializa-se em satisfação tigrina ou termina sua fuga triunfal em orgulho próprio e bons genes para as próximas gerações. Não fosse o tigre, o cervo seria só mais uma existência estúpida.


Pois bem. Às vezes o pasto nos cansa e meio que esperamos os felinos. Torcemos para que eles nos apareçam, mesmo que para terminarmos entre seus dentes.

sábado, 12 de julho de 2008

Que rabugice que dá...

... ver esteriótipos serem celebrados, louros serem auto-atribuídos...

... as delongas e as posteridadades...

... servir-me de pinico pra bordões disfarçados em sabedoria e não ter nenhum ouvido em troca, mesmo que pra abobrinhas não tão pomposas.

(enfim, são coisas que eu nem precisava ter dito. é só pra deixar registrado no Diário Oficial da União esse momento ímpar que é a tpm, desresponsabilizando-me por danos e furtos.)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A esperança

... é sempre uma náusea que não se consome.
Haja Eno psicológico pra acabar com ela. E muito estoicismo.

Só o deus do acaso é um deus em que se possa crer.

Falando em espíritas...

... eu torço para que eles estejam certos. TORÇO!
Porque viver seria muito mais inconseqüente. Pensa fazer qualquer coisa e poder voltar e fazer de novo, mesmo se o ato custasse a própria vida. Desde que, é claro, não fosse imposta a pena (que para o espiritismo é uma "dádiva") da desencarnação. Isso aqui seria quase um Hopi Hari de almas!


Mas eu também torcia, aos 5 anos, para que o Papai Noel do ano seguinte não fosse meu tio ou meu avô, e sim o verdadeiro.
Hunf! Contentar-se com 70 ou 80 anos é muito chato!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Pássaro na mão

Mal esperava pelo dia em que alcançasse a misteriosa parte de cima da televisão, onde os pais colocavam todas as coisas perigosas da sala. Alcançou e cansou-se delas.
Aos 12, sonhava com a liberdade que teria aos 18. Junto à maioridade, o primeiro emprego, as primeiras rugas e a liberdade de escolher entre suco de laranja ou limão.
Faculdade... quando viria a alforria? Veio em 5 anos (reprovou no terceiro); levou mais dois para arrumar um emprego que ao menos lhe garantisse férias.
Casou-se com quem pretendia há já ansiógenos 4 anos. Arrumou uma casinha, uns moveizinhos, um carrinho popular, uma dividazinha e um bom tecido adiposo. Mas e os filhos? Os tão esperados filhos...
Vieram às pencas em um intervalo de tempo de uma década. João Pedro, José Paulo, Ana Maria, Maria Carla. Gradação entre chupeta pra Pedro, chocalho pra Paulo, boneca pra Ana, caderno pra Carla. Nada pros pais, que sumiram atrás dos seus mil-e-um papéis assumidos, menos o de serem eles mesmos.
Os filhos cresceram, a dívida estabilizou-se, os peitos caíram e o resto já não sobe nem por reza. No colchão, uma linha divisória invisível - mas efetiva- entre os dois.
Eis que acorda no meio da noite, rememora tudo isso e decide ser espírita. Ahhh... quem sabe na próxima chance prefira brincar com os brinquedos que tem em mãos a ficar desejando o que está em cima da inatingível televisão.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

No meio-termo




(É pretensão vã buscar nas criaturas apenas a originalidade.
Só as percebem sensibilidades igualmente singulares,
tão escassas quanto flores no deserto.)

Aos que são flores, uma gota d'água é oceano.
Aos que são deserto, nem o Pacífico toca o peito.
Aos que são húmus, nem ressequidos nem delicados,
resta fazer brotar de si algumas pétalas passageiras.

Porém das flores, um sol mais forte retira o viço.
E do deserto, monção nenhuma devolve a vida.
Já quanto ao húmus, extremo algum lhe tange a cara.

Nem ressequidos, nem delicados:
percebem em partes e repelem em partes o mundo que avistam.
De pétala em talo à pétala no solo, vivem e deixam de viver.
No meio-termo, em meio ao medíocre.
Além do espinho, aquém do pleno

sábado, 28 de junho de 2008

Queria ser

...como meu gato sarnento, que nunca vai sentir o peso da culpa por ter dito uma estupidez imensa. Mais uma vez.

Porque nem só de sapiens vive o Homo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Queria ser

...como meu gato sarnento, que faz da bagunça do rack sua cama confortável. Dorme feito um pivete cansado numa aula de trigonometria, facinho e gostoso.

Nego só suas sarnas. Delas, bastam as metafóricas.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aula de trânsito



(O semáforo fica vermelho)

- PARE!
- Tá, parei. E agora?
- Agora repare.
- Em quê?
- Só repare. Como se reparar fosse um verbo intransitivo.


...



...


- Gostou?
- Estranho. Mas bom.
- O que sentiu?
- Imensidão. Liberdade. Vácuo. Um pouco de desamparo, mas desamparo de mim mesmo: senti-me ao mesmo tempo o órfão e o pai que o renega. Diluí meus contornos no vazio, como se tivesse deixado de ser uma forma geométrica rígida. Como se eu fosse uma mancha disforme vagando no colorido da existência.
- Ótimo! Mas agora volte a ser um quadrado. O semáforo ficou verde.


domingo, 15 de junho de 2008

Streap tease

Na net, onde o tempo máximo de reflexão é de uns 5 segundos, nos pedem a mais metafísica das definições: "quem sou eu". Perguntar uma coisa dessa é desistir de uma resposta precisa. Não dá pra despir-se assim tão explicitamente numa página da rede! No máximo, um streap tease vagaroso, onde o jogo de oculta-revela vale mais que a nudez em si. Uma ou outra peça sempre fica - geralmente a máscara, esquecida no rosto devido ao uso constante.

Pois bem, deu vontade de brincar de streap tease. :p

A primeira peça a ser tirada? Que tal a da família, que cobre boa parte do nosso corpo durante a vida inteira? (é, baby... impossível fugir dos genes e dos tiques).
A minha, um tanto exótica desde os primórdios. Um pai de 31 - mesmo longe, alguém que não faz falta, infelizmente - sobe barbado ao altar junto a uma mãe de 21, descalça e descabelada. Amor? Que nada! Só pelo desejo mútuo de morar em Florianópolis. A separação veio rápido, é claro: eu tinha menos de 5 meses. Ótima experiência! Desde pequena, o casamento deixou de ter os ares graves de uma instituição sagrada. Nos seus maus galhos faça-se a serra. Não boa a poda? Corte-se a amarra!

Poesia, na terceira série, era para mim sinônimo de rima. Durante dois bimestres obriguei-me a encontrar palavras cujos sons fossem semelhantes, sem ter sido pedido pela tia. Um puta trabalhão por uma fixação boba. Coisa de criança parnasiana.

Não repetisse o fonema,
Não calibrasse o poema,
Sentia-me desengonçada
Tal qual uma ema.

(e qualquer rima boba dava conta do recado)

Atéia, mais por criação que pelo mérito da crítica própria.
Cíclica, consequência do estrógeno.
Paranóica, mais por experiência que por insanidade.
(às vezes mais por insanidade mesmo. Pêlo encravado em ovo? Pode deixar que eu encontro e resolvo!)

O que me atrai? Subamos o Olimpo para responder.
Sátiro/ Sibila. Centauro. Ártemis/ Dioniso. Um deus bufão.
Também Apolo e Afrodite, como bons guardiões das aparências, das artes e dos deleites.
Ímpeto e júbilo. Ares graves e de escárnio. Um pouco do poder de Júpiter, um pouco da insalubridade de Hades. Chiaroscuro. O ácido e o adubo do riso. E a alternancia ininterrupta disso tudo, como a mais pré-socrática das frases: "tudo é Um".

Pessoas: ame-as ou deixe-as.
Num ensopado insosso, vez ou outra aparece um ingrediente nobre, que dá sabor a todo o resto do caldo. Esses ingredientes não me deixam perder o apetite pela humanidade. Então sigo caçando raridades e minúcias nas veredas das pessoas que encontro.

Desejos, paixões? Florbela já bem disse. O amor de um homem, terra tão pisada... Um homem? Quando eu sonho o amor de um Deus! Tá, Cazuza, quem não sabe amar espera pessoas do tamanho de seu sonho, como insetos em volta da lâmpada. Um dia aprendo, então. Por hora, não é uma aula inadiável.
Porque sempre desejo o inconciliável, extremos que não encontro nem em mim, então não posso cobrá-los nos outros. Enquanto esse Deus unificado não vem, contento-me com um politeísmo não tão onipotente. Uma ou outra deidade que rendesse algum culto; muitos santos dos pés de barro, que valeram o tempo de duração de suas imagens - mas valeram!

O que espero do mundo? Dele, não mais do que já me deu como amostra. De mim, 5 (ou 6?) sentidos cada vez mais aguçados e ativos. E uma medicina evoluída e acessível, que me dê a licença de viver um século e em bom estado.
Essa água, ainda que salobra, há de servir muito ainda à minha sede.

Até agora mais consumi que dei ao mundo o que ele merecia. Peço-lhe um pouco mais de paciência: não consigo retribuir sem a certeza de que ele me fez prenhe, de que estou prestes a parir um filho de quem ele goste.
De que vale um simples casulo perto do vôo leve da borboleta? Pois bem, dê um pouco mais de tempo a esse casulo. Não posso garantir uma borboleta-monarca. Não sei se dele surgirá uma mariposa cinzenta ou mesmo uma mosca (caso mosca surgisse de casulo). Mas se eu me sair uma varejeira nojenta, Mundo, dedetize-me sem culpa!



Tá. Dou por findo esse jogo de revela-esconde.
Moral da brincadeira: autodefinições desinteressadas na net podem ter mais valor que anos depositados na conta gorda de algum analista.

As máscaras, essas não desgrudam nunca. São usadas no palco, nas coxias, nos camarins... Talvez sejam nosso chão e pedestal - apoio inevitável.
Fico, portanto, aqui: despida mas coberta por elas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

São Valentim da terceira idade


"Desci do prédio e vi ele encostado ao ponto de ônibus. Pensei que tinha tido o azar de marcar encontro com um pé-rapado. O homem era um pão, mas pão-duro eu não queria não."

Longe de encontrar esse depoimento em revista para adolescentes, tamanha sinceridade veio da lábia experiente de dona Maria. Maria cheia de graça e libido. Do sertão cearense, trouxe consigo ainda moça o sotaque e o calor, dos quais não arredou pé nem no clima ameno do Sul. "Lá os homens são mais chegadinhos, visse?" Hoje vive de pensão rala e aposentadoria míngua, mas há 40 anos era primeira-dama de Terra Rica, cidadezinha no cafundó paranaense, fronteiriça ao cafundó paulista. Neuto Galdino, o falecido marido e ex-prefeito, caíra nas graças daquela mulher a quem chamava de rainha. Bonita, Maria tinha a personalidade própria a uma majestade do cangaço.

Além das visitas desencarnadas de Neutinho "ao menos um sábado por mês", o que mantém o sorriso resistente aos mais de 79 anos são os bailes dominicais, com o perdão do Senhor pela atividade em dia de descanso. Desde que se estabelecera em Maringá, há 10 anos, sua chegada no Clube do Vovô é aguardada ansiosamente pelos melhores pés-de-valsa da sua faixa etária. A preferência? Um rala-coxa bem coladinho, tendo o parceiro namorada ou não. O compasso e uma boa pança fazem parte dos pré-requisitos na escolha do parceiro de dança. Ela explica que a barriga a poupa do inconveniente da animação excessiva do companheiro, estimulada pelo balanço do soltinho. “É bom porque não encosta .”

Mas quem Maria realmente queria ver com esse vigor todo tomava remédio para tratar da depressão e da insônia. Agenor, 67 anos e pinta de cinqüentão, além de não sorrir também não dançava. Mesmo assim, ela escolhera-o como pretendente. No dia do encontro soube que não era o pé-rapado que julgara: tinha carro e aposentadoria confortável. O gol 2003 foi estreado dez minutos após a apresentação e os três beijinhos. Ela respondeu ao convite para dar umas voltas com um sorrisinho escorregadio, quase sem vontade. Por dentro, porém, lhe queimava o ardor de um Nordeste guardado desde a morte de Neuto.

Entrou no carro; pararam numa rua escura. A passagem de duas moças ao lado de onde Agenor estacionara deixou-a acanhada, fazendo-a desviar da primeira tentativa de beijo. “Elas ficarão é com inveja, Maria.” Os olhos abrilhantaram-se com a promessa, que foi devidamente cumprida num beijo cinematográfico.

As janelas já gotejavam o suor daqueles corpos. No frescor da noite contrastando com a temperatura de dentro do carro, encerra-se o primeiro carinho, que parecia interminável. Maria riu da limpeza que Agenor fez com o polegar no canto da boca. Começaram, aos risos, o round II, dessa vez dando espaço a mãos sem destino definido. Ela esquentou ao sul de seu Equador, enquanto Agenor não moveu um milímetro do “músculo”. Tamanha inércia foi notada pela malícia de mulher observadora: “Ai pai, homem bom que nem esse não funciona bem da carne?”

Não foi difícil descobrir que este era o motivo da depressão do homem. Junto à descoberta veio o telefonema, no dia seguinte, avisando-a da despedida. “Você não me quer então, Agenor?” Querer ele até queria. Mas não conseguiria, nem com ela nem com mulher nenhuma. Do sexo só colhia a secura de uma caatinga desabitada. “Você está certo, eu preciso de varão inteiro. Mas pensa, homem! Neuto tinha isso também. Foi no médico, sarou. Tem remédio, visse? Se quiser te espero.” Não se viram mais.

Mas hoje é 12 de junho, quando São Valentim desculpa aos brasileiros pelo atraso de quatro meses em comemorar sua data. O inverno rigoroso no comércio precisa das graças desse tal de Valentim. Que a seqüência do calendário seja dia de Santo Antônio, o casamenteiro, é por pura coincidência: enlace matrimonial já é folclore do século passado. Hoje padre dá lugar a advogado, jura dá lugar a contrato e as bodas dão bode só de pensar em tanto tempo ao lado de uma mesma pessoa. Até dona Maria pensava assim: namoro, só se cada um vivesse em sua respectiva casa. Mas mesmo em tempos pós-modernos há espaço para umas pitadas de romance. Sendo 12 de junho a data de hoje, não é bom terminar a história em desilusão, mesmo porque não seria conforme a veracidade dos fatos.

Um segundo telefonema, uma semana depois, acaloraria Maria mais que os três cobertores que a protegiam do dia mais frio do ano. “Funcionou, minha rainha! No outro dia fui ao médico, e com uns dois dias de remédio e a sua lembrança durante a insônia eu ressuscitei!” Às cinco horas da tarde, tanto ela quanto ele começaram o ritual: um banho escaldante para sumir com as impurezas cotidianas – as de corpo e de alma. Ela, perfumes e maquiagem discreta; ele, asseamento e barba feita. Mais que São Valentim, celebrariam naquele dia uma Páscoa pagã. Santa seria, para eles, a ressurreição do divino desejo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Desejo e lágrima em Flor

Florbela Espanca,
bacante doce-fera.
Entre medíocres, alma ímpar
condenada pela morada montanhesa
-única a fazer jus aos seus desejos altivos-
ao ar austero da solidão.

Abiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
o vôo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor de um Deus!...

Charneca em Flor, 1930.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Personalidade urbana - Mgá

O problema dessa cidade é que lugar nenhum onde se vá nela - bar, cinema, praça, rua, prédio...- completa-se por si só. Sempre fica aquela impressão de "para onde vamos agora?", "que faremos depois?"
É assim talvez pq falta personalidade aos ambientes. Quando as têm, são fracas ou falsas demais, não se sustentam por muito tempo. São identidades difusas, diluídas, homogêneas, tipicamente contrárias às diferenças - e por esse último motivo não conseguem se definir. Há exceções, mas às margens.

Uma questão para arquitetos, sociólogos, psicólogos, artistas e transeuntes. Ou apenas uma implicação de uma moradora crica e fora do lugar, que está querendo muito dessa debutante vaidosa que é Mgá? Exigências precoces feitas a uma donzela de apenas 61 anos, ainda em puberdade?



quarta-feira, 4 de junho de 2008

Pedro, o pedreiro cult

Meu! Um pedreiro do prédio ao lado está cantando R.E.M., com um sotaque incrivelmente perfeito!!!
Já tinha ouvido samba de raiz, Chico Buarque... e essa agora.

Para dizerem milho dizem milho
Para melhor dizem melhor
Para pior pior
Para telha dizem telha
Para telhado dizem telhado
E vão fazendo telhados.

Santo reluzente

Do avô, o epitáfio:

"Santo Diamante
* 02/11/1938
+ 30/11/2005

Da vida, fez um eterno lapidar-se.
Legou brilho aos seus. Que se façam polidos."

terça-feira, 3 de junho de 2008

O sorveteiro - Parte XII

(...)
Tudo havia acontecido muito simultaneamente, como se ele fosse predestinado a grande posto e não sabia. Político, ele? Talvez tivesse o dom da palavra e da consquista através delas... mas disso a decidir o futuro das pessoas? "Sinais, homem! Isso tudo que aconteceu foram sinais! Não foram?" Levou a divagação até a última gota no banco do parque e tomou rumo em direção à Catedral, trazendo essa dúvida na algibeira.

Não era dado à religiosidade. Se rezava, era para espantar a solidão quando ela estava dolorida demais, caso não encontrasse analgésico em companhia humana. Temia pelas meninas, pedia pela segurança delas, mas quem tomava a palavra na prece era mais o desejo que a crença. "Quem faz o mal nesse chão são os homens. Não cabe a Ele decidir pelo mau uso que fazemos do livre-arbítrio."

Mas agora era hora de papo sério. Queria Ele alguma coisa com Silva? Atribuíra-lhe alguma missão? Para saber mais sobre isso, o homem foi ter na casa Dele. Por que pediria algo em que ele não fosse versado, como se fizesse encomenda de vestido de festa à costureira que não sabe dar ponto nem nó?

Chegou na Catedral. "Não quero, Pai!" - o medo falou mais alto ao aproximar-se do altar. Não queria entrar no mundo da política, como quando não quis entrar no mundo carnal oferecido por Margot. As mãos que o seguravam naquele dia tinham o mesmo vigor de quando o seguraram na juventude. Nem uma ruga a mais. Traziam as unhas pintadas de negro, dando a entender que não era para a vida que trabalhavam. Justo quando Silva estava para realizar algo que o faria crescer, essas mãos vinham sedentas tricotar nós no seu estômago e nas suas decisões.

-Não quero, Pai. O que eu faço?

Como resposta, um vento gelado vindo da cúpula da igreja. Tão gelado quanto a bronca de seu Jorge em tempos de puberdade:

-Homem nasceu pra isso, com você não vai ser diferente. Se te trouxe aqui, foi pra não sair correndo.

A mesma sentença ecoou dentro do sorveteiro, trinta anos depois de inaugurada.
Dessa vez, ele não poderia fugir.

(...)

domingo, 1 de junho de 2008

O sorveteiro - parte XI

(...)

Quando algo lhe vem à cabeça.

Pomba nenhuma segura suas sobras digestivas, para não ter sobrepeso e dessa forma poder voar. Por isso uma delas lança, sem cerimônias, seus restos sobre os cabelos parcos do sorveteiro, que já divagava há um tempo sentado no banco do parque. Ele limpa a desfeita do animal com a mão, mas não se irrita. Outra coisa já estava em sua mente, ocupando-o com preocupações maiores. Maiores que tudo o que pensara até então.

Talvez fosse uma titica de idéia mesmo, como a ave o avisara. Estava destreinado demais no maquinejar do futuro. Mas devia fazer a vida começar a engrenar logo. Devia fazer valer a frase do pai, frase cujo sentido não levava a fundo desde o dia em que se deu por satisfeito ao lado do Kiko. “É hoje, Silva, o dia da reviravolta? Dia em que grandeza fará parte do meu vocabulário de pessoa sem estudos?” – pensava consigo.

E o homem, pela primeira vez, pensou em si mesmo como alguém notório. Digno de terno e gravata, de secretários, assessores e motoristas. A sorte lhe dera todos os sinais: tirou-lhe a negrinha do caminho, tirou-lhe o doutor do caminho, tirou-lhe, inclusive, o velho caminho de vendedor de picolés, que não o levava a mais lugar nenhum. Assim sem rumo, frente ao nada, deveria refazer seu destino. Numa cena bíblica, nuvens abriram-se para iluminar, com um único feixe de luz, “a” cadeira, o assento na câmara que mais nada impedia que fosse dele. Nada impedia!...

Não era só ele quem dizia que a cidade estava precisando de um alguém do povo no governo. Entre os mais simples isso era e sempre foi consenso. Mas a novidade era ouvir isso dos abastados. Queriam diminuir o descontentamento daqueles fazendo-os se sentirem representados, como se houvesse uma democracia ideal. Na prática, sabiam que seria um só voto contra os seus, que uma pessoa sozinha em nada palpitaria. Obviamente, o discurso não era esse. Em comício, ouvia-se:

- A cidade caminha em direção a uma menor discrepância social. Que as classes se unam na construção de um futuro melhor para as gerações vindouras!

- Bonito isso, né? – disse o porteiro ao sorveteiro, mesmo sem entender lhufas do discurso ouvido, um pouco antes da dupla sertaneja aquecer o coração do último e a dança com a morena ao lado do primeiro.

(...)

O sorveteiro - parte X

(...)

Silva lembrou-se de Oswaldo. Melhor, daquele que seria o Excelentíssimo Sr. Vereador Oswaldo. Pensou na loucura que foi ter abandonado a carreira política promissora por uma paixão abrasante e incerta – fato que seria louvado pelo sorveteiro, não fosse a rasteira que levara de do Carmo. Mas a eleição já estava perdida para aquele homem desmoralizado. Junto ao status, o doutor perdera também o carisma. Carisma que Silva tinha de sobra.

Das dez bundas que ocupavam os assentos reservados aos vereadores na cidade, nove eram previsíveis. Reeleições infindáveis ou indicações daqueles que já passaram da validade na câmara mantinham sempre as mesmas nádegas ali, quadradas de tanto chá de cadeira. Mas sempre sobrava uma última, sem nome próprio, que era entregue a uma revelação qualquer. Um fato marcante que ocorresse a um desconhecido era motivo de deslanche no mundo da política. Tinha gente que tentava expor-se em reality shows só para conseguir aquela função.

Naquele ano, o sorveteiro tinha certeza de que a cadeira incógnita seria o novo assento do amigo doutor, depois da vitória no caso da loura e do juiz. Pena: a derrota posterior e a briga no fórum renderam-lhe fotos indignas na imprensa. Silva tentou visualizar os outros doutores que o cumprimentavam na escadaria e só lembrou da frieza daqueles. “Pessoas assim se esquecem do povo logo que os santinhos são limpos nas ruas, no dia seguinte à votação.” Quisesse político que lembrasse dele, das primas, do porteiro e dos meninos descalços - com quem implorava para que deixassem as “pedras” -, teria que votar em alguém vindo do povo também. Mas esse candidato não existia.

(...)

sábado, 31 de maio de 2008

O sorveteiro - Parte XIX

(...)

“Que comece a vida, pois!” - foi a frase que o sorveteiro ouviu do pai há trinta anos, ao perceber o filho interessado nos decotes femininos, ainda comportados em comparação aos de do Carmo e das primas. Levou-o, é claro, para falar com Margot, a ruiva gorda que todo mês tinha carne nova em sua casa para rapazotes como Silva.

O filho estranhou a intimidade do pai com a cafetina. Ficou de coração apertado ao pensar que a mãe era enganada em relação às horas-extras feitas no trabalho. Isso explicava o fato de que apenas o serviço fosse extra, nunca o salário. “Melhor trabalhar mais e ganhar pouco do que não trabalhar, Nadir! Reclamar que eu não vou.” E a mãe se calava. Não estavam em condições de pedir nada: a fila dos que se contentariam com menos era ameaçadora demais para encorajar alguma exigência.

Se o pai de todos os outros meninos faziam o mesmo, porque não o seu? Porque era seu pai, oras! Seu Jaime da Silva ensinara a ele todos os princípios que trazia consigo, inclusive o dom de perceber as pessoas mais profundamente do que elas mesmas em relação a si. Era respeitoso com todos e tudo, mesmo em tempos de se perder a cabeça, tal como estava a época em que o sorveteiro era rapazote. Talvez por isso a válvula de escape na casa da luz roxa –Margot não gostava de vermelho, lembrava-se do sangue que pintou parte de seu passado.

Mas e a curiosidade? Ah! Essa não podia ser negada. Disputava com os meninos da rua as frestas da janela daquele que era o primeiro prostíbulo da cidade. Escola para quê? Não entendia porque a professora de português se matava explicando aos meninos da quarta série - cursada duas vezes por Silva, quando desistiu de encará-la pela terceira – as belezas femininas adoradas pelos poetas, se elas estavam logo ali, longe do tato, mas ao sabor da vista.

“Não quero, pai...” No fundo, era o que mais queria na vida. Mas uma mão o segurava por dentro. Se as tocasse, deixaria de idolatrá-las, deixariam de ser santidades. Essa sensação o perseguia desde sempre. Amava sempre de longe, até que a obsessão o tomava e não conseguia guardar para si só tudo o que sentia. Quando revelava o sentimento incontrolável - e caso fosse retribuído - deixava logo de desejar: o objeto perdia a aura.

E isso foi assim até o dia em que Maria Bela mostrou para ele que o desejo, contido em si ou escancarado e retribuído, era motivo de estagnação. A primeira lição que tivera na vida foi durante a infância, quando o pai lhe dera as bases do viver com honra. A segunda foi a prova de fogo do dia em que Maria fugira. Dali para frente estava o ato decisivo: saltar o abismo ou cair nele. Para não escorregar, estufou o peito e repetiu a frase do falecido pai, agora com o sentido vindo de homem de mais de quarenta anos:

- Que comece a vida, pois!

(...)

Hedonismo


O prazer é da cor rosa pastel com reflexos dourados.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Ah! A transparência...

Crime delicado, 2005. Direção de Beto Brant, inspirado na obra de Sérgio Sant'anna.

No bar. Conversa entre o crítico de teatro renomado e a atriz que o convidou para jantar.

"
- Tá sozinho?
- Porquê?
- Você tem cara de homem solitário.
- Ah, é mesmo?
- Uhum. Daqueles que precisam de cuidado.
- Que bom. Você entende muito sobre os homens, não é?
- O suficiente.
- Pra quê?
- Pra cuidar deles.
- Que bom.
...
- Você já foi casado?
- Tive algumas amigas.
- Que duraram muito tempo?
- Mas o que que é isso, um interrogatório pra uma revista de intimidades? O jornalista aqui sou eu!
- Desculpa. Só tava perguntando.
- Pra quê?
- Ué? Não sei. Não é pra isso que a gente sai com as pessoas?
- Não sei, eu saí porque você tinha alguma coisa pra me dizer. Talvez você tenha, e eu acho que sei o que você tem pra me dizer. Você deve estar querendo armar uma certa intimidade pra poder perguntar o que eu acho da sua peça e com isso comprometer um pouco minha opinião; se não sobre o espetáculo, pelo menos sobre seu trabalho. Eu sei que deve ser muito difícil pra você, afinal de contas você vem batalhando há um puta tempo nessa carreira e vê em mim a possibilidade de alavancá-la. Me trazendo aqui, me expondo aos seus, como um troféu. Talvez você quisesse isso e talvez eu também quisesse um monte de coisas, e quem sabe a gente pudesse fazer uma troca. Talvez você pudesse... chupar lentamente meu pau, enquanto eu escrevesse um artigo exclusivo sobre a grande revelação dos palcos desse momento. E talvez você pudesse até ser um pouco mais generosa, me encontrar vez ou outra, e tirar essa aparência de solitário que você diz que eu tenho. Talvez eu até pudesse me apaixonar por você, o que não é difícil. Em pouco tempo eu perceberia que a paixão é realmente uma invenção da literatura burguesa. Aí acho que você se arrependeria de ter me procurado e perceberia que uma bosta de um elogio no jornal diário não significa mais que uma boa trepada em uma noite fria; e que no dia seguinte não passa de mais que uma lembrança sem desdobramento. Talvez eu pudesse olhar nos seus olhos, como estou fazendo agora, e dissesse que o mundo é tão óbvio... que se a morte me tocasse nesse momento... seria ainda assim previsível."

Final da cena: a atriz vai para a casa dele.
Moral da cena: assim ficou bem mais fácil. Escroto -como muita coisa o é-, mas transparente -como muita coisa deveria sê-lo.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Déjà sentu

"Das palavras acadêmicas - sempre em marcha - ao ballet do bom uso vocabular: seria essa passagem o motivo da sua leveza e júbilo?
Assim etérea e eterna, qualquer mordida em qualquer maçã poderia lhe revelar um novo infinito fugidio."

Só para lembrar que no dia 25 de março pensei nisso. Um guia para o resto dos meus dias.

Etérea, eterna, fugidia.
Leveza e júbilo.

Reconquistarei isso tudo. Mas, como diz Agostinho, "não agora". Ainda não consigo.

O Santo e a Porca

Sócrates (Grécia clássica):
"Conhece-te a ti mesmo"

Eu (aqui, na "pólis" típica):
Agüenta-te a ti mesmo, infeliz.
...


Santo Agostinho (período patrístico, primórdios do feudalismo):
"Senhor, dai-me a castidade e a continência - mas não agora."

Eu (aqui, no período burguês com resquícios feudais):
Senhor, dai-me a reflexão e a paz interior - mas não agora.
Uns trocados, quem sabe, seriam de bom grado.
...


Blaise Pascal (modernidade, apesar de dissonar nela):
"O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas um caniço pensante. Não é preciso que o universo arme-se para esmagá-lo: uma vapor, um gota de água basta para matá-lo. Mas mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, pois sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhecesse isso."

Eu (aqui, na contemporaneidade dissonante):
Por favor, me esmague. Porque não consigo parar de pensar e já não agüento mais tanta insônia. Minhas olheiras não me tornam mais nobre que o universo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Escrever

é sempre um estado de tensão. Mesmo que se fale em leveza.
Só se escreve aquilo que está para transbordar: a palavra é sempre a última gota.

A pressão colocada na ponta dos dedos no momento da escrita faz o papel das contrações de um parto.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Laissez passer



Quando o id chama, é melhor que o consciente o ouça?
Quando o instinto bate, deve-se abrir a porta?
Ele pode ser tanto dínamo quanto detonador. Obedecê-lo é fazer uma aposta perigosa, entre a fortuna e a ruína.
Depois de tê-lo libertado, só se pode olhar pra trás e ver o que foi feito.

Se foi um estrago, não se arrependa: não poderia ter sido diferente. Qualquer ação é preferível à inércia!
Sinta tudo, inclusive pesar. Menos culpa.
Talvez haja conserto, caso não fosse pra ter ocorrido. Ou quem sabe o melhor é ter o terreno limpo.
Aproveite a nova paisagem enquanto ela ainda tem alguma beleza.

Definições e notícias insólitas

Mais baixo que a Holanda.

Mais curioso que bisturi.

Seu superego era um marxista ortodoxo, seu id era um liberal cheio da grana.

Eu-larica: o poeta usuário.

"Godard: do inglês arcaico, 'um deus que arde'" (pérola orkútica).

Manchete: O ex-nadador Chou-Cha mandou 'Beijing Beijing, chao chao' para as piChinas e virou empresário de Cesar Cielo. (bem Wilson)

domingo, 25 de maio de 2008

Arte como desfamiliarização

Paul Cézanne - Lac d'Annecy - 1896.

"Vivemos em meio aos objetos construídos pelos homens, entre utensílios, casas, ruas, cidades e na maior parte do tempo só os vemos através das ações humanas de que podem ser os pontos de aplicação... A pintura de Cézanne suspende estes hábitos e revela o fundo de Natureza inumana sobre a qual se instala o homem... a paisagem aparece sem o vento, a água do lago sem movimento, os objetos transidos hesitando como na origem da Terra. Um mundo sem familiaridade... Só um humano, contudo, é justamente capaz desta visão que vai até as raízes, aquém da humanidade constituída... O artista é aquele que fixa e torna acessível aos demais humanos o espetáculo de que participam sem perceber."

Merleau-Ponty sobre Cézanne. Seleções da Marilena Chauí no seu Convite à Filosofia.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

TPM


O interessante em ser mulher é alternar entre momentos suicidas ou homicidas e momentos entusiastas ou generosos em menos de dois ou três dias.

Só tendo ovário para saber.

Momentos limites


O chão em volta cede. Só uma coluna de terra bamba lhe resta para sustentá-lo por sobre as entranhas escaldantes da Terra, que já fazem arder a pele fina do rosto. O melhor a fazer é se jogar dali ou fantasiar algo que novamente lhe alçaria a um piso seguro, mesmo sabendo que seria pura invenção?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Poetas

Há pessoas que elogiam por carência e egocentrismo. Por carência, querem que o outro reconheça a beleza do que foi dito. Por egocentrismo, o que dizem se refere mais às suas capacidades que às qualidades dos elogiados.

Preferem ser poetas, ainda que ocos, a amantes.
E como são tristes, ainda que belos, os poetas.

Até conhecerem alguém imune aos seus cantos de sereia, porque vê o vazio por dentro do veludo que os esconde. E a amnésia lhes toma, fazendo-os esquecer das notas com que embriagavam quem os ouvia. Tentam falar daquilo que antes entoavam e nunca sentiam, mas só saem vespas de suas bocas. Assim sem versos, viram cinza e pó, sem fênix ao fim.

Pois como são tristes, ainda que belos, os poetas! Entoa-dores.

Clean


Quer saber? "E que tudo o mais vá para o inferno!" No more anxiety.

Catarses são necessárias, renascimentos também. E por favor garçom, vê mais uma dose disso tudo; puro, sem gelo. Que é para descer rasgando pela garganta, amarrar o rosto inteiro e carbonizar o passado próximo todinho. Até mais ver, amargura. Até a próxima gota.

Porque agora eu me quero nua. Que venha o frio do ártico ou o calor escaldante: minha pele veio ao mundo para senti-los. Tomei um banho ácido, estou limpa. Inodora e incolor, pronta pra novas sinestesias.

sábado, 17 de maio de 2008

Mascando...


Será que os animais choram?
Porque qdo eu pensei no desgosto mais amargo do mundo, só consegui defini-lo comparando-o à vida estúpida - tornada estúpida por nós humanos - dos pastejantes. Um eterno mascar de feno. A imagem passou pela minha cabeça, pensei no meu "ultimamente" e me senti uma eqüina. Não égua, mas eqüina, sem antropomorfismos maldosos. E nessa pele senti uma amargura sem diluições, e não consegui chorar: nunca vi lágrima em olhos não-humanos.
A vantagem de passar por isso é saber da capacidade - rara - de sair de si, de usar os sentidos do que é outro. Nesse caso, um outro com pêlos e cascos. Quem sabe fui passiva nessa experiência. Talvez algum animal colocou-se em meu lugar, me invadiu. Ou nós dois criamos juntos um momento só nosso, em que só nós sentimos aquilo. De qualquer forma, houve uma fusão.
Tá, fui longe. Mas isso faz lembrar uma coisa simples. Faz lembrar que o que vale a pena no contato com os outros é esse criar de momentos e espaços únicos. Momentos em que tanto uma quanto outra pessoa (ou outro ser) deixam suas preocupações individuais e compartilham o que estão vivendo, como se tivessem parido uma à outra naquele instante. Ou quando recriam espaços, dando novos sentidos àqueles que, de tão cotidianos, eram despercebidos. É piegas, mas dizem que na amizade e no amor isso acontece.

Qual a relação disso com meu momento eqüino? É que alguns estados de espírito não são transmissíveis às pessoas, pq são únicos demais. Quem em sã consciência compartilharia com alguém a sensação de que a vida é um mastigar eterno do pouco que nos cabe? Só um ser encilhado entenderia. É que em bichos é mais fácil achar essa capacidade de deixar-se um pouco para morar no que vai além de si.

...

Senti como se estivesse mascando, mascando até Zeus sabe quando. E fui me deitar assim, mascando. Quem sabe em sonho esse pasto-mundo não tenha tantas cercas.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Virada Cultural

Eu não ia postar, ficou "jornalístico demais". E aconteceu há um tempo.
Mas a fofíssima pediu, então lá vai:

Os nutricionistas recomendam: quanto mais variado e colorido o prato, maior o valor nutricional. Não seria abuso metafórico usar dessa mesma regra para avaliar a saúde de um povo: a diversidade de manifestações culturais é sinal de robustez de um povo. Nesse sentido, a 4ª Virada Cultural, que reuniu mais de 800 atrações nesse fim de semana em São Paulo, foi um tônico para qualquer alma moribunda.

Exemplos dessa riqueza se mostraram desde o trajeto entre o Mercado Municipal, onde desceram os visitantes maringaenses, e o palco da avenida São João, onde pisaram Cesária Évora, Gal Costa, Mutantes, Zé Ramalho e outros nomes de peso. Só entre os quinhentos metros percorridos entre a Ipiranga e o referido palco, era possível ver bares requintados, salões de beleza populares, cinemas eróticos e a Igreja Internacional da Graça de Deus, de onde o missionário R. R. Soares apresenta o Show da Fé.

A pluralidade cultural faz parte do cotidiano paulistano. E ela foi confirmada nesse evento que reuniu aproximadamente 4 milhões de pessoas, com 26 palcos só no centro. A presença de tribos urbanas distintas não deu origem a nenhum contratempo do porte da Virada do ano passado, quando houve confusão durante o show dos Racionais MC´s. Críticas, talvez aos banheiros químicos, que não impediram que a urina corresse pelas calçadas, e aos problemas inevitáveis a qualquer aglomeração de pessoas.

Entre a multidão que se empurrava e os artistas, organizadores, imprensa, celebridades e convidados desfrutavam de um espaço privilegiado em frente a cada palco. Ali era possível ver, por exemplo, o olhar fixo do cineasta Cao Hambúrguer nos pés descalços de Cesária Évora. A alguns metros dele, uma comissão de cabo-verdianos reverenciava a conterrânea, empunhando a bandeira azul estrelada.

Ouvir de Gal a comparação entre o evento e os festivais de músicas dos tempos do tropicalismo, ver a baterista dos Mutantes enérgica a ponto de quebrar a baqueta, presenciar Arnaldo Antunes descer do palco para conversar com os presentes foram alguns dos momentos ímpares que serão preservados na memória de quem pôde conferir a Virada.

Junto a essas lembranças, fica o desejo de que mais maringaenses compareçam tanto a 5ª edição do evento paulistano quanto àqueles que podemos presenciar em nossa cidade. Eventos como o Femucic e projetos como o Convites à Dança, Convite à Música, Convite ao Teatro, Um Outro Olhar e outras tantas iniciativas que procuram trazer esse clima saudável de diversidade cultural para Maringá não podem ser esquecidos nem menosprezados.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Aparição da incompreendida



- Quem é Fernando Correia?

Na sala de 160 pessoas, um gordinho sério levanta a mão.

- Pode pegar seu material.

Quando ele chega próximo à porta, o inspetor lhe avisa, baixinho (e como eu estava sentada perto dela, consegui ouvir):
"Sua mãe ligou. Parece que seu pai não está muito bem, melhor você ir para casa."

(por uma semana ele não veio às aulas depois disso, de luto)


Fiquei branca na hora. Mais uma vez a morte mostrou-se presente, assim de perto. Como se ela avisasse a todos naquele momento: "Sabe isso tudo que vocês leram, fizeram, pensaram, falaram, sentiram até hoje? Não tem sentido nenhum. EU sou o seu sentido e de tudo o que se diz vivo. O melhor a fazer é desistir agora, antes que vcs olhem para trás e percebam que foi só uma perda de tempo." Claro que meu pensamento foi pro infinito e a fala do professor virou zumbido até o fim da aula. Eu só ouvia a voz cavernosa do não-ser.

Calma! Cair nos encantos da morte - sim, ela é sedutora! - está fora de cogitação. Mas nem por isso o que ela disse não tem razão. Para quem acha que um mundo além desse é tão provável quanto o Coelho da Páscoa, uma fala daquela faz mais sentido que todas as fórmulas que o homem inventou até hoje para ter alguma certeza.

Ainda assim, prefiro persistir no absurdo que é viver.

domingo, 11 de maio de 2008

Dilacerando-se

Enfiou a mão na boca e foi buscar no estômago toda raiva que juntou até ali. Tirou de si um bolo que fedia a enxofre. Esculpiu aquilo, fazendo uma pedra informe, e deixou secar ao sol. Usaria a obra para talhar o crânio do primeiro que lhe perguntasse, mesmo sabendo a resposta, pelo porquê daquilo tudo. Escorria ácido por seus poros: quem a desejava era corroído até o osso. Ela era uma bacante, e ai do Penteu que tentasse escutar de perto seus rugidos!

Silêncio! Deixem-na gerar esse filho amargo que carrega em si. O filho está morto em seu ventre, mas ela não sabe e espera ansiosa pelo nascimento. Deixem-na devorar a si própria em rancor, quando perceber que os meses cheios do seu afeto foram ilusão. Silêncio! Ouçam seus gemidos de morte, quando ela souber do fim.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Maria não pára III

-Não, mainha, não vou jogar fora meus bonecos de argila!

-Mariquinha, minha flor! Vc já criou e quebrou tantos! Esqueceu?

...

-Tá bom então, minha mãe. Mais uma vez não custa. Posso jogar tudo no lixo?

Maria esvaziou o quarto, tão cheio de entulhos que ela nem conseguia mais andar nele. E pegou mais argila no sótão infinito pra criar outras coisas. Porque parar ela não podia.

Voyeurismo

Voyeurismo psicológico pode ser algo muito interessante. Vai além da curiosidade pelas vidas alheias expostas na net. É mais um farejar de minúcias, trejeitos, manias e exotismos implícitos em todo mundo. Também não é buscar essas coisas em uma só pessoa -isso é fixação-, mas interessar-se pelo que é pequeno em tudo.

Como quando você passa por por alguém com pressa e vê que ele ou ela está andando sorrindo. Andar sorrindo, puxa! Não tem como não sorrir também, a não ser que você e seu umbigo formem um só bico imenso de desgosto pela vida. Qual seria o motivo da felicidade? Será que mais algum traço do rosto - uma ruga talvez - o revele? Será que a cor da blusa, o corte do cabelo, a idade ou as mãos no bolso nos dizem algo? O que teria tanto valor para ela, que tenha dado certo e a deixara assim? Será sorte no amor e no jogo - obviedades - ou ela também maravilhara-se com algo pequeno, como o sorriso de um terceiro transeunte?

Quando menos percebe, você já está inexplicavelmente sorrindo, contagiado pela dúvida e pela minúcia. Santa curiosidade! Só ela para fazer-nos ver as coisas com olhos de águia. A visão do que é microscópico é o faz a vida parecer valer a pena, mesmo quando ela não vai lá aquelas coisas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Meninos, lesmas e círculos



A lesma, por onde passa, deixa marcas viscosas que denunciam suas andanças.

Tinha uma lesma que um dia olhou pra trás e percebeu que havia feito círculos e mais círculos. Que gastara anos de sua vida apenas fazendo círculos gosmentos. E viu graça no desenho, porque já tinha ouvido falar de um sábio chinês que dizia que não levar-se a sério era sinal de autoconhecimento. Quer gozar mais de si mesmo do que fazer das pernas o próprio destino, esquecendo de levar em conta os roteiros da razão ou do coração? Enquanto ela escorregava na sua gosma, ia se assistindo como a um filme barato. Filme daqueles que a gente não precisa pensar, porque entregam o enredo embaladinho, pronto pra ser servido.

E a lesma olhou aquele muco todo e pensou no tempo que levou para fazer aquilo e no caminho inteiro que percorrera. E sentiu como se estivesse no ponto zero de sua vida. Que cada círculo que fizera tinha seu ponto zero, e que todos eles a levavam a lugar nenhum. Viu que tudo começara no ponto zero zero, quando era uma lesminha e dera sua primeira escorregada, toda sem jeito. Foi quando começou a vida errante e errada.

Uma fila de formigas saúvas passava a seu lado com ar de desprezo. Como eram poderosas aquelas formigas! Em uma noite, conseguiram carregar nas pinças a horta inteira do pai do menino que brincava logo ali. Quanta força, quanta determinação! Mas que dó que deu quando o menino pegou a lupa pra ver formiga morrer queimada pelos raios de sol.

Quanto círculo, quanto círculo! Quanto círculo gosmento, quantos meninos brincando de roda, quantas formigas fazendo trilhas circulares, quantas mães mexendo em círculo a panela do feijão que o menino vai enrolar pra comer! E o pai, que agora devia estar rodando a cidade inteira pra voltar do serviço? Ele tinha que trabalhar pra não deixar a conta naquele zero redondo que estava, motivo das últimas zonzeiras da mãe. Ciclo vicioso.

O chinês estava certo, não havia nada que não fosse motivo de riso. A lesma sentiu que estava tendo uma epifania circular, e riu, riu até estrebuchar. Mas ela estrebuchou foi do sal que o menino jogou nela. O pivete caiu na gargalhada quando viu a lesma ferver, contorcendo-se em espiral. E ela murchou toda e terminou-se num sorriso de boca de lesma.

Gato

Nem bem acordo, enrolando-me em edredons, e ele já sobe na minha cama com aquelas patinhas cuidadosas, procurando o melhor terreno para pisar. Tenta não me incomodar. Enfia a cabeça por sobre o edredom e se acomoda no vão que meu corpo deixa nele. Enrola-se até que fique coladinho a mim. Fica só com a cabeça fora das cobertas, com aqueles olhões verde-mar-limpo abertos. E me olha. Olha tão fixamente que parece que sou o motivo que preenche sua vida. O único motivo. Não sai de lá enquanto não mudo de posição ou me levanto. Caso eu levante, ele prefere me acompanhar do que aproveitar o finalzinho do calor que nós dois deixamos no colchão.

São lições de gatos pra homens. Pena que eles não aprendem.


domingo, 4 de maio de 2008

Maio de 68 e maio de 08

Estudantes durante os confrontos com a polícia em maio de 68 na França.


"Desde 1936 tenho lutado por aumentos salariais. Meu pai, antes de mim, também lutou por aumentos salariais. agora eu tenho uma tv, uma geladeira, um Volkswagen. Porém, apesar de tudo, minha vida continua sendo uma vida de cachorro. Não discuta com os patrões, elimine-os."

"O poder tinha as universidades, os estudantes tomaram-nas. O poder tinha as fábricas, os trabalhadores tomaram-nas. O poder tinha os meios de comunicação, os jornalistas tomaram-na. O poder tem o poder, tomem-no!"

"O que queremos, de fato, é que as idéias voltem a ser perigosas"

"Sejam realistas, exijam o impossível!"

"A revolução não é a dos comitês, mas, antes de tudo, a vossa. Levemos a revolução a sério, não nos levemos a sério"

"Acabareis todos por morrer de conforto"


"Camaradas: a humanidade não será salva até o dia em que o último capitalista for enforcado nas tripas do último bancário". Frase de Gramsci escrita nas paredes de Paris durante as barricadas.


Há 40 anos essas e outras frases emblemáticas eram entoadas pelas ruas ou escritas nas paredes parisienses. No mesmo ano, o clima revolucionário espalhou-se pela Europa e Américas. Essas frases, porém, já não fazem mais tanto sentido para os europeus.


Silvio Berlusconi, reeleito primeiro-ministro da Itália no mês passado.


Hoje, o Velho Mundo Ocidental vem elegendo governos de direita na maioria das eleições ocorridas desde 2007. Nicolai Sarkozy na França, Silvio Berlusconi na Itália,
Andrus Ansip na Estônia, Matti Vanhanen na Finlândia, Anders Fogh Rasmussen na Dinamarca, Yves Leterme na Bélgica, Costas Karamanlis na Grécia, Ian Paisley na Irlanda. A exceção é a Espanha, que reelegeu o primeiro-ministro socialista Jose Luiz Zapatero.


Nicolai Sarkozy, eleito presidente da França há um ano.


Dominique Reynié, professor de Ciências Políticas do
Institut d'Études Politiques de Paris, diz ao Le Monde que "quando a conjuntura econômica vai bem, há uma demanda de liberalização, que a esquerda não parece capaz, salvo exceções, de responder de maneira convincente." Também ressalta que a direita tem vantagem por trazer um discurso de proteção da identidade, de segurança, e por trazer à tona a questão da imigração. Isso sem contar com o envelhecimento da população européia, que segundo Reynié faz com que ela experimente mais medos e ansiedades.

A direita conquista o eleitorado europeu tocando em pontos nevrálgicos e dizendo estar mais bem preparada para enfrentá-los que os sociais democratas. Vence recorrendo ao discurso do medo. Para quem clamou na juventude por idéias perigosas e pelo fim do conforto burguês, os europeus colocaram o rabo no meio das pernas e foram dormir na casinha.

sábado, 3 de maio de 2008

3 de Maio, 200 anos

"3 de Maio de 1808", de Francisco Goya, retratando o massacre de civis espanhóis pelas tropas napoleônicas.


Tropas americanas no Iraque, que tiveram 46 baixas em abril. Em apenas um dia (28/04), porém, mataram 38 supostos criminosos em Bagdá. Três dias antes do massacre, Bush pede ao Congresso "que aprove US$ 70 bilhões (R$ 115,2 bilhões) para as campanhas militares no Iraque e Afeganistão em 2009, quando entregará o governo a seu sucessor". Folha, 2/5/8.

"As forças americanas mataram 14 rebeldes xiitas em uma série de enfrentamentos no bairro de Sadr City, na capital iraquiana." Folha, 3/5/8.




quinta-feira, 1 de maio de 2008

Desabafo

Um dia me obrigaram a ouvir isso, ou algo parecido:

"Aqueles que estudaram em escola privada serão os futuros empresários, presidentes de corporações, grandes nomes entre os profissionais liberais, industriais. A eles, o acesso a boas faculdades é mais garantido. Porém o fato de que ocuparão altos cargos não os dispensa da preocupação com a qualidade do ensino gratuito, porque é daí que virão seus funcionários. Ninguém quer funcionário desqualificado."

Pode até ser fato, mas não regra. Se tomado como regra, esse pensamento é mais justificativa de uma divisão social estamental. E o pior: usa a máscara da responsabilidade social.
Dá até pra fazer uma inversão, que seria aplicável a muitos casos que conheço. Que uma escola privada fornece mais conteúdo é inegável. Mas exatamente por isso, por "dar na boca, mastigadinho", a curiosidade, possibilidade de autodidatismo e a sede de conhecimento podem ser abafadas. Para quem tudo veio em doses mirradas a vontade aumenta, e o vigor para correr atrás também.

Isso não é uma regra. Tem até mais cara de exceção. Mas só por existirem alguns desses casos, cai por terra a lógica da imobilidade. Isso sem contar que eu vi muito mais qualidade humana no ensino público. O que também não é regra, mas fato.

Pronto! Desabafei.
É que me deu ódio ouvir aquilo.


terça-feira, 29 de abril de 2008

Enterro

Ela cavava fundo para que pudesse enterrar o corpo, mas ainda ouvia ele chamá-la. Na cova de já cinco palmos ela deitou o homem, que se debatia devagarinho. Coberto de terra, o suposto defunto fez emergir a palma, suplicando pela dela. Ela não retribuiu o gesto, pois sabia que só na sua mente aquele homem ainda tinha um tantinho de vida. Subiu sobre o túmulo e pisou fundo naquela mão, enfiando-a à força na morada eterna. Mas a voz continuou ressoando.

Ele não merecia a vida. Não ao lado dela. Tudo poderia ter acontecido, mas ele quis que se afastassem. Antes de pedir o distanciamento, fez uma encomenda, mais exótica do que todas as que fizera desde que a conheceu. Ela não entendeu, mas cumpriu: pegou de um bisturi e fez rasgos no corpo dele em partes estratégicas, fazendo seu sangue jorrar. O sangue seco sobre o corpo transformou-o numa estátua rubi, que foi devidamente envernizada, para durar um tempo. Ainda conforme o pedido, ela o expôs por algumas horas no sofá da sala. Ele queria que ela se lembrasse para sempre do bom e curto tempo que passaram juntos, e que ficasse dele a imagem de uma exótica jóia rubra.

Assim foi feito. Faltava ainda que se fizesse um enterro simbólico, e ela o cumpriu em seguida. Mas ele percebeu que o olhar dela estava tomado por uma força maior que o costume, e deu-se conta do desfecho que aquilo tudo teria. Depois de ter perdido tanto sangue, tinha pouca força para dizer que o que ela fazia era um erro, e que deveriam encarar uma vida a dois novamente. Debaixo da terra, ele repetia desesperadamente o nome dela. Mas ela sabia que, se a voz a perturbava, seria por pouco tempo: o som ficava cada vez mais distante e inaudível.

Dentro em breve o corpo seria só mais uma ossada entre as várias que jaziam na sua memória. E ela poderia dormir em paz, com mais vida do que quando ainda pensava nele. Ele também ficaria em paz, porém sem vida.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Le premier bonheur du jour

Le premier bonheur du jour
C’est un ruban de soleil
Qui s’enroule sur ta main
Et caresse mon épaule

Uma xícara de café
aconchego num bistrô
enrolada em cachecol
no friozinho de abril

E as sombras ao redor
sob a fraca luz a gás
como se quisessem dançar
trêmulas, como a vida o faz

O sol fraco em Paris
a ponte Neuf sobre o rio
de suas águas dá para ouvir
"O sagrado mora aqui"

Parabam
parararabá, parararabá parararabá....

La premier chagrun du jour
C’est la porte qui se ferme
La voiture qui s’en va
Le silence qui se instale
Mais bien vite tu revien
Et ma vie retorn son course
Le dernier bonheur du jour
C’est la lamp quis s’atend

Parabam
parararabá, parararabá parararabá....

Ai ai...

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte VIII

(...)

Silva foi tentar descansar sua mente no parque. Mas ora! Percebeu que havia um pequeno túnel cavado à unha na gaiola dos furões, e que um deles havia sumido: a fêmea. Os machos não tinham sua vivacidade, nem perceberam o caminho livre. As araras gritavam ansiosas, pois viram o bicho passar determinado por ali. Também queriam experimentar vôo, mas lhes faltava a malícia necessária à fuga.

O sorveteiro dissipou a poeira e conseguiu vislumbrar o caminho que Maria deixara aberto para ele. Não que estivesse insatisfeito com sua vida, mas ver a negrinha dar esse salto o fez provar do néctar embriagante da ambição. Antes, o que o impedia de sonhar alto eram suas emoções moles, pensando encontrar cura pra tudo nos remédios do coração. Não fazia planos, porque Bela era sempre o objetivo último de cada dia. Ah, coração tolo e pequeno!

Não que o amor fosse pura ilusão. Silva não deixou de achá-lo uma coisa bonita. Mas daí a ser algo que guiasse sua vida, isso nunca mais. Viu que era um sentimento que só cabia à algumas pessoas afortunadas, predestinadas a andar em plumas, a enxergar cores suaves e a cantar com notas harmoniosas e ondulantes. As outras, que não eram predestinadas a amar mas o desejavam, perdiam décadas achando que Afrodite só não lhes trouxera essa graça ainda porque estivera atarefada demais, mas morriam sozinhas fazendo oferendas a seu altar. Entre esse grupo havia ainda uma classe característica: aquelas pessoas insatisfeitas com o que a deusa lhes oferecia como companhia, porque buscavam nos outros apenas a grandeza que julgavam encontrar em si. A deusa se irrita com esse tipo de cegueira, e entorta os olhos delas em direção aos seus umbigos até que são engolidas pelas próprias vísceras. É que Afrodite tem as Eríneas como amigas íntimas.

Por isso Afrodite saiu do panteão de Silva. Hermes retomaria seu posto: se dera certo para Maria, mirabolar planos com astúcia também daria certo para ele.

(...)

domingo, 20 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte VII

(...)

Foi só dar um passo e pensar um pouco que o coração de Silva parou. Os sorvetes de dentro do carrinho, vendo ele gelar-se tão de repente, derreteram-se em respeito: todo o frio do mundo havia migrado para dentro daquele peito. A causa da glaciação estava num simples ligar de fatos, que o leitor também já deve ter feito.

Não será preciso fazer rodeios para revelar o mistério da história - não se trata, aqui, de cânone sherlockiano. Que Maria Bela fugira com o doutor Oswaldo é uma conexão que qualquer um que acompanhou o desenrolar da ação faria. Elementar, meu caro leitor. O que importa, nesse caso, não é o processo de solução do mistério, mas as consequências que ele teve na vida do nosso sorveteiro.

Talvez uma revisão das causas também seja de algum interesse, seguindo aqui a prática forense. Que Maria exalasse feitiço era fato conhecido nosso. Que havia um carro que há muito a procurava, também. E que o doutor Oswaldo não tinha mais um porquê nessa cidade também já foi bem esmiuçado. Nada mais precisa ser dito.

(...)

sábado, 19 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte VII

(...)


Antes que o sorveteiro abrisse a boca, o porteiro já foi recheando o ambiente de novidades que não eram de seu interesse. Não falou de Maria Bela, porque não gastaria tempo com mixarias e também nem saberia se algo tinha acontecido. Se farejava os bafos da cidade, tinha que ser de peixe grande. E o último colosso que aconteceu dava seus sinais na sacada do sétimo andar, onde despontava a esposa do doutor Oswaldo. Ficou sabendo pela faxineira do apartamento que o homem sumiu sem deixar rastros nem no escritório, nem no fórum, nem no celular e nem em lugar nenhum.

A notícia pareceu cabível para Silva. Desde o escândalo na escadaria, o doutor não ganhou mais nenhuma causa. Tinha perdido a única virtude que mantia alguém naquela cidade – o status. Nem sua esposa, orgulhosa nos tempos de ouro de Oswaldo, mostrava tanto gosto pelo marido desde então, fato testemunhado até pelo porteiro. O homem estava descontente, a mulher também. Dizem que a conta também não estava assim tão gorda. Melhor a fazer era sair dali; já não tinha mais nenhuma paixão que o segurasse: nem da mulher, nem pelo emprego, nem pela candidatura, que naquela altura não aconteceria mesmo. Entristeceu pelo conhecido -até porque entregaria a quem a confiança na cadeira da câmara?- mas as informações que queria quando foi pra lá eram outras.

- O que interessa Maria qualquer! Deixa de moleira por mulher, homem! O que você tem em gosto, ela tem em descaso! Caso que importa agora é o da advogada aí sozinha, mulher do doutor Oswaldo. Escreve o que eu estou te falando: loguinho, loguinho aparece a imprensa e a polícia aqui me perguntando do sumiço do homem. Pudera eu saber de alguma coisa! Só vi ele saindo vestido de bom pano, mas isso é costume de todo dia. Feliz deve estar a dona, que tinha o apartamento em seu nome e estava só esperando motivo pra mandar embora o... como ela dizia mesmo?... imprestável.

É. Se fosse pra saber de Maria, deveria descobrir sozinho. A cidade se voltaria toda para o mais novo escândalo daquele que já fora cidadão notável. Quem o ajudaria em caso de amor que só a ele cabe? Nem o próprio Silva, se não fosse ele mesmo quem padecesse de emoção partida.

(...)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte VI

(...)


Tudo isso até agora foram lembranças que o sorveteiro me fez contar a vocês, leitores. Se quiserem achar o tempo em que a ação realmente ocorreu, verá que ela está aqui, não longe do fim da história. Ela aconteceu no dia em Maria do Carmo, lindamente vestida de Maria Bela, entrou num carro prata, que era seu freguês de longa data. “Deve ser homem de triunfos – nome que Silva dava às notas azul-claro-, e a menina é das mais procuradas. Não é difícil de fazer nascer paixão nos outros. Só ver eu.”

Sua voz sabor groselha adocicava as vontades de qualquer homem que aparecesse, cativando desde exigentes até aqueles que não viam na mulher nada mais que uma perdição passageira - que naquele caso era certa. Ela trazia curvas no corpo, nos cabelos e no falar. Desviava do que não a levasse a seus propósitos, mas mostrava caminho longo e sem entraves a todo assunto de seu interesse. Sereia com pernas - grossas e à vista -, estava desde o início da semana nos reparos de Silva, que a via morder os lábios mais do que o normal. Ela fazia aquilo quando estava pra realizar algo grandioso, então melhor botar o olho.

Desde o dia em que a viu pisar os pés na praça, Silva não deixou o hábito de cronometrar o tempo de cada serviço seu. Viu que esse tempo estava em função do valor do carro: quanto mais caro o veículo, mais demorado o programa. Morreu de preocupação quando uma Ferrari, única na cidade, o privou de ver a moça por duas horas intermináveis. E se algo tivesse acontecido? Foi até o prédio mais alto da região ver com o porteiro- informante de tudo o que acontecia de íntimo na avenida Tiradentes- se tinha visto o tal carro por aí. Esse prédio era a morada do doutor Oswaldo, e o porteiro de lá lhe dera em primeira mão as notícias do caso do juiz, notícias que fizeram crescer a simpatia de Silva pelo engravatado.

Mas a angústia de não ver Bela, no dia da Ferrari, foi só de duas horas mesmo. Logo ele a viu passar com maquiagem nova. Acontece que o carro prata, que nem era tão caro assim, já fazia Silva palpitar pela negrinha por mais de seis horas! Perguntar por ele ao porteiro-informante era mais difícil, havia muitos carros iguais àquele na cidade. Mas ele era sua única fonte de alívio, e foi o que Silva pode fazer.

(...)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte V

(...)


Domingo era dia que pedia presença perto das gaiolas dos bichos, no zoológico do parque. Era para onde as famílias iam, com filhos em penca: motivo de vendas abundantes. Quando não estava dando trela a quem passasse perto, Silva estudava com os bichos. O pavão lhe dissera que o motivo da vida é estético, e que tudo o mais, além do belo, é supérfluo. O jabuti, centenário, lhe sussurrara a essência do tempo, em lição de invejar Agostinho, o santo. A família de patos lhe definira a ternura; o pequeno sagüi lhe advertira esperteza. Quando a tempestade mandava o vento avisar sua chegada, os bichos se agitavam, mas logo faziam reverência àquela que era sinal da mãe de todos ali.

Mas o dia estava claro, e a conversa se desenvolvia sem formalidades. Silva foi falar com as araras, as meninas alegres do zôo. Se enfeitavam em cores aqueles bichos. De profundo tinham só o azul e o rubro das penas: no mais era tudo uma festa esvoaçante. Assanhadas, se achegavam perto das grades para ganhar cafuné e, quem sabe, um pedacinho de sorvete. Gritavam para chamar a atenção daqueles que tinham potencial de lhes darem guloseimas. “As meninas do zoológico daqui são como minhas meninas do zoológico de lá”.

Não viu Maria do Carmo no meio delas. Ela estava em jaula de bicho mais evoluído. A viu entre os furões rasteiros, de olhar inquieto e sempre a pensar em algo pra fazer. Faziam cara de bajulação para encantar a todos que passavam, mas se afastavam ligeiros das mãozinhas infantis que não se satisfaziam em vê-los apenas. Não nasceram para ser apertados por vontades que não eram suas.

(...)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte IV

(...)

A idéia de intenção de voto se dissipou com um estalo. Era um tapa que fora dado pelo advogado vencedor em Oswaldo, desses de doer mais a honra que a cara. Daí para socos, murros e pontapés nas partes impróprias foi questão de segundos. “Isso aqui está mais baixo que a Holanda”, pensou.

Silva se lembrou do seu tempo de escola, quando vingou ciúmes nos olhos do homem bronco que mexera com Elidiana, o primeiro nome a trincar um pedacinho de seu coração. Mas ali, do lado da escadaria do fórum, quem brigava eram homens já barbados. Representantes da justiça de papel escrito, não da do seu tempo de menino. Não conseguiu conter a risada quando comparou sua molecagem de gente sem juízo àqueles ternos que se amarrotavam. Para quê: Oswaldo, seu amigo importante mas humilhado, aquele em quem votaria, ouviu seu descaso na forma de riso. Corou.

Não era de seu feitio ficar de expectador em caso que pede ação, menos ainda de atrapalhar o que já está atrapalhado. Que homem era aquele de deixar conhecido passar vexame, mais ainda na frente de multidão curiosa, que já se formava? Vexame passou ele, engasgando-se em gargalhada no meio de caso tão sério. Não fez mais nada: enfiou a vergonha que era sua e dos doutores no Kiko e foi fazer sua vida de sorveteiro no Parque do Ingá, perto de bichos que se bicam e se mordem menos. “Brigar por território, fêmea e comida tem mais cabimento que brigar por psicológico machucado.”


(...)