sexta-feira, 30 de maio de 2008

Ah! A transparência...

Crime delicado, 2005. Direção de Beto Brant, inspirado na obra de Sérgio Sant'anna.

No bar. Conversa entre o crítico de teatro renomado e a atriz que o convidou para jantar.

"
- Tá sozinho?
- Porquê?
- Você tem cara de homem solitário.
- Ah, é mesmo?
- Uhum. Daqueles que precisam de cuidado.
- Que bom. Você entende muito sobre os homens, não é?
- O suficiente.
- Pra quê?
- Pra cuidar deles.
- Que bom.
...
- Você já foi casado?
- Tive algumas amigas.
- Que duraram muito tempo?
- Mas o que que é isso, um interrogatório pra uma revista de intimidades? O jornalista aqui sou eu!
- Desculpa. Só tava perguntando.
- Pra quê?
- Ué? Não sei. Não é pra isso que a gente sai com as pessoas?
- Não sei, eu saí porque você tinha alguma coisa pra me dizer. Talvez você tenha, e eu acho que sei o que você tem pra me dizer. Você deve estar querendo armar uma certa intimidade pra poder perguntar o que eu acho da sua peça e com isso comprometer um pouco minha opinião; se não sobre o espetáculo, pelo menos sobre seu trabalho. Eu sei que deve ser muito difícil pra você, afinal de contas você vem batalhando há um puta tempo nessa carreira e vê em mim a possibilidade de alavancá-la. Me trazendo aqui, me expondo aos seus, como um troféu. Talvez você quisesse isso e talvez eu também quisesse um monte de coisas, e quem sabe a gente pudesse fazer uma troca. Talvez você pudesse... chupar lentamente meu pau, enquanto eu escrevesse um artigo exclusivo sobre a grande revelação dos palcos desse momento. E talvez você pudesse até ser um pouco mais generosa, me encontrar vez ou outra, e tirar essa aparência de solitário que você diz que eu tenho. Talvez eu até pudesse me apaixonar por você, o que não é difícil. Em pouco tempo eu perceberia que a paixão é realmente uma invenção da literatura burguesa. Aí acho que você se arrependeria de ter me procurado e perceberia que uma bosta de um elogio no jornal diário não significa mais que uma boa trepada em uma noite fria; e que no dia seguinte não passa de mais que uma lembrança sem desdobramento. Talvez eu pudesse olhar nos seus olhos, como estou fazendo agora, e dissesse que o mundo é tão óbvio... que se a morte me tocasse nesse momento... seria ainda assim previsível."

Final da cena: a atriz vai para a casa dele.
Moral da cena: assim ficou bem mais fácil. Escroto -como muita coisa o é-, mas transparente -como muita coisa deveria sê-lo.

4 comentários:

O Desbunde disse...

muito bom esse texto! tem mais?

Maíla disse...

vc precisa ver o Marco Ricca atuando nessa cena!!

O Desbunde disse...

eu quero!!! Pena q não há mais apresentações. Podiam filmar!

Maíla disse...

http://www.interfilmes.com/filme_16047_
Crime.Delicado-(Crime.Delicado).html