domingo, 1 de junho de 2008

O sorveteiro - parte X

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Silva lembrou-se de Oswaldo. Melhor, daquele que seria o Excelentíssimo Sr. Vereador Oswaldo. Pensou na loucura que foi ter abandonado a carreira política promissora por uma paixão abrasante e incerta – fato que seria louvado pelo sorveteiro, não fosse a rasteira que levara de do Carmo. Mas a eleição já estava perdida para aquele homem desmoralizado. Junto ao status, o doutor perdera também o carisma. Carisma que Silva tinha de sobra.

Das dez bundas que ocupavam os assentos reservados aos vereadores na cidade, nove eram previsíveis. Reeleições infindáveis ou indicações daqueles que já passaram da validade na câmara mantinham sempre as mesmas nádegas ali, quadradas de tanto chá de cadeira. Mas sempre sobrava uma última, sem nome próprio, que era entregue a uma revelação qualquer. Um fato marcante que ocorresse a um desconhecido era motivo de deslanche no mundo da política. Tinha gente que tentava expor-se em reality shows só para conseguir aquela função.

Naquele ano, o sorveteiro tinha certeza de que a cadeira incógnita seria o novo assento do amigo doutor, depois da vitória no caso da loura e do juiz. Pena: a derrota posterior e a briga no fórum renderam-lhe fotos indignas na imprensa. Silva tentou visualizar os outros doutores que o cumprimentavam na escadaria e só lembrou da frieza daqueles. “Pessoas assim se esquecem do povo logo que os santinhos são limpos nas ruas, no dia seguinte à votação.” Quisesse político que lembrasse dele, das primas, do porteiro e dos meninos descalços - com quem implorava para que deixassem as “pedras” -, teria que votar em alguém vindo do povo também. Mas esse candidato não existia.

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3 comentários:

Wilson Guerra disse...

... e com a crescente sensação em Silva de que o processo eleitoral não passava de um ficção, como as novelas da Globo transmitidas toda noite, pensa em carregar umas metralhadores dentro dos carrinhos de sorvete. 'Que derretam-se os sorvetes, não a ação', pensa, meio inconscientemente ainda".

Nossa, agora que percebi como pode ser bacana pegar carona nas tuas estórias. :)

Maíla disse...

Aí vc fez um filme do rambo ao contrário.
Não, wilson, ele não vai dar uma de "Tiros em Columbine" ou "Elefante".
Pq vc não cria essa estória? É relaxante.

Wilson Guerra disse...

Depende, se ele continuar com as metralhadores sozinho, vira "Tiros em Columbine" ou "Rambo" mesmo (não assisti "Elefante"). Se não ficar sozinho, vira "Os 10 dias que abalaram o mundo".
Gostei. Divertido. Pensarei com carinho em sua proposta.