domingo, 2 de março de 2008

Degustação

..."sendo o mercado um cardápio variado, e não havendo mais regras absolutas, cada um escolhe o prato que mais lhe agrada. " ...
(Jair Ferreira Santos - O que é pós-modernidade)

As opções do menu eram tantas que ela satisfazia-se com a própria expectativa de comer. Cada página virada era um manjar apreciado vagarosamente. Tanto que ela nunca chegava à última: saciava-se antes.

- Qual seu pedido, madame?
- Desejo esse cardápio, por favor. E um copo d'água para acompanhar.

Olhava a velocidade com que as pessoas engoliam. Nascecorreandasangradescecheirapintaolhatransaarrotaanotacospemascajogabeijacoçaavisapassa. Tudo muito válido. Desde que ninguém viesse falar em vazio: era muita coisa para não ser nada. Se com tudo aquilo ainda sentiam fome, devia ser porque não aprenderam a degustar. E todo degustar implica num posicionamento de olhar: se não se saciavam, era por miopia.
Como comer tudo aquilo? Essa receita não estava no cardápio.

7 comentários:

Wilson Guerra disse...

"...cada um escolhe o prato que mais lhe agrada."

Nem sempre posso pagar pelo prato que escolhi. Acho que isso acontece com você também!

Maíla disse...

mas posso degustar de infinitas maneiras aquele q posso pagar. (não, eu não vou me condenar à infelicidade nunca, wilson! esse fatalismo é muito pesado, e as vezes a única saída é uma visão das coisas de um jeito mais criativo. tá!!! não é solução, mas é sobrevivência. tem funcionado comigo.)


E ahh... o autor havia especificado isso. Não é um apologia.

Maíla disse...

ops... umA apologia

(q polonês isso)

Wilson Guerra disse...

"NEM SEMPRE posso pagar pelo prato que escolhi". Eu disse "nem sempre", e não "NUNCA". Maíla, as vezes você é muito 8 ou 80 sabia? hehehe

Acho que em nossa última conversa, você me interpretou como um 'pregador da tristeza'. Se isso aconteceu, por favor, reavalie. Foi um equívoco. Há muitas evidências impíricas de que não sou um 'pregador da tristeza'. Nas mesas de bar, inclusive, parece que formamos uma evidência dessas. Muitos amigos meus (marxistas inclusive) são 'pregadores da tristeza', mas a mim, "repudio" (como dizia Zé Dirceu) essa "acusação" hehehe. Apenas não nego a existência das limitações surgidas de (enormes) obstáculos que nos são impostos por razões que você conhece, mesmo que talvez não concordemos em todos os seus detalhes. Isso não significa que não tenhamos momentos de alegria e satisfação na vida. É evidente que eu busque isso, e você também. Podemos fazer planejamentos buscando isso de maneira diferente, e é até bom que seja assim, torna o processo bem mais rico.

"Mas posso degustar de infinitas maneiras aquele Q POSSO PAGAR" - Viu, isso é um reconhecimento de que há limitações. É só isso que estou falando.

Sou dialético demais pra receber o adjetivo de "fatalista" :P hehehehe

Maíla disse...

Ver de "infinitas maneiras" já é uma anti-limitação, mesmo que seja a visão de poucos objetos. Como num fractal: existe uma paisagem delineada, mas isso não impede de existir também "infinitos" em detalhes. É desses "infinitinhos" que tenho me alimentado.

É uma polilética, multilética! Não sei se é muito interessante a criação surgir da negação. Mas minha fobia à metafísica me afastou um pouco desse tema. (retomarei)

jebar437 disse...

Gostei muito.

jebar437 disse...

Sim, mas não é nada que não passe até o fim da semana.

=P