segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte IV

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A idéia de intenção de voto se dissipou com um estalo. Era um tapa que fora dado pelo advogado vencedor em Oswaldo, desses de doer mais a honra que a cara. Daí para socos, murros e pontapés nas partes impróprias foi questão de segundos. “Isso aqui está mais baixo que a Holanda”, pensou.

Silva se lembrou do seu tempo de escola, quando vingou ciúmes nos olhos do homem bronco que mexera com Elidiana, o primeiro nome a trincar um pedacinho de seu coração. Mas ali, do lado da escadaria do fórum, quem brigava eram homens já barbados. Representantes da justiça de papel escrito, não da do seu tempo de menino. Não conseguiu conter a risada quando comparou sua molecagem de gente sem juízo àqueles ternos que se amarrotavam. Para quê: Oswaldo, seu amigo importante mas humilhado, aquele em quem votaria, ouviu seu descaso na forma de riso. Corou.

Não era de seu feitio ficar de expectador em caso que pede ação, menos ainda de atrapalhar o que já está atrapalhado. Que homem era aquele de deixar conhecido passar vexame, mais ainda na frente de multidão curiosa, que já se formava? Vexame passou ele, engasgando-se em gargalhada no meio de caso tão sério. Não fez mais nada: enfiou a vergonha que era sua e dos doutores no Kiko e foi fazer sua vida de sorveteiro no Parque do Ingá, perto de bichos que se bicam e se mordem menos. “Brigar por território, fêmea e comida tem mais cabimento que brigar por psicológico machucado.”


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