quarta-feira, 16 de abril de 2008

Sorveteiro - Parte V

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Domingo era dia que pedia presença perto das gaiolas dos bichos, no zoológico do parque. Era para onde as famílias iam, com filhos em penca: motivo de vendas abundantes. Quando não estava dando trela a quem passasse perto, Silva estudava com os bichos. O pavão lhe dissera que o motivo da vida é estético, e que tudo o mais, além do belo, é supérfluo. O jabuti, centenário, lhe sussurrara a essência do tempo, em lição de invejar Agostinho, o santo. A família de patos lhe definira a ternura; o pequeno sagüi lhe advertira esperteza. Quando a tempestade mandava o vento avisar sua chegada, os bichos se agitavam, mas logo faziam reverência àquela que era sinal da mãe de todos ali.

Mas o dia estava claro, e a conversa se desenvolvia sem formalidades. Silva foi falar com as araras, as meninas alegres do zôo. Se enfeitavam em cores aqueles bichos. De profundo tinham só o azul e o rubro das penas: no mais era tudo uma festa esvoaçante. Assanhadas, se achegavam perto das grades para ganhar cafuné e, quem sabe, um pedacinho de sorvete. Gritavam para chamar a atenção daqueles que tinham potencial de lhes darem guloseimas. “As meninas do zoológico daqui são como minhas meninas do zoológico de lá”.

Não viu Maria do Carmo no meio delas. Ela estava em jaula de bicho mais evoluído. A viu entre os furões rasteiros, de olhar inquieto e sempre a pensar em algo pra fazer. Faziam cara de bajulação para encantar a todos que passavam, mas se afastavam ligeiros das mãozinhas infantis que não se satisfaziam em vê-los apenas. Não nasceram para ser apertados por vontades que não eram suas.

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4 comentários:

Wilson Guerra disse...

Salada intelectual muito, muito nutritiva.

Marco Fabretti disse...

conversa deveras interessante!

Marco Fabretti disse...

sinta-te a vontade

http://guerreirosdetalassa.blogspot.com/

abraço

Maíla disse...

verei com tempo... ;)